Como a ciência está trazendo o dodô de volta

É quase Jurassic Park, mas com pombo no lugar de T-Rex. O dodô sumiu de Maurício há uns 350 anos

Dodo
O dodô sumiu de Maurício há uns 350 anos. A idéia da empresa Colossal Biosciences é reconstruir um.

É quase Jurassic Park, mas com pombo no lugar de T-Rex.

O dodô sumiu de Maurício há uns 350 anos, e a ideia da empresa Colossal Biosciences é não clonar um dodô perfeito do passado, porque isso ainda é impossível, mas reconstruir um. Eles estão usando o parente vivo mais próximo, o pombo-de-Nicobar. Dodô (Raphus cucullatus) foi uma ave grande, incapaz de voar, que era nativa exclusivamente da Ilha Maurício, no Oceano Índico. Ele era um parente distante dos pombos, pesava cerca de 23 quilos e tinha asas curtas. O animal extinguiu-se no final do século XVII devido à caça humana e a predadores introduzidos na ilha.

O pulo do gato aconteceu agora:

  • Eles conseguiram cultivar em laboratório as células germinativas primordiais de pombo, as PGCs, que são as que viram óvulo e espermatozoide. Até então isso só tinha funcionado em galinha e ganso. Isso levou mais de 300 tentativas de receita de cultura.
  • Com essas células na mão, eles vão usar CRISPR para editar o DNA do pombo-de-Nicobar e inserir as características do dodô que já mapearam no genoma – tipo bico enorme, pernas curtas e incapacidade de voar.
  • Depois essas células editadas são injetadas em galinhas que foram editadas para não produzirem as próprias células germinativas. A galinha vira uma barriga de aluguel e bota um ovo que, na prática, já é de pombo com DNA de dodô.

E tem o ovo artificial. Eles chocaram 26 pintinhos vivos num ovo impresso em 3D, sem casca natural e sem precisar de mãe chocando. Tem uma membrana de silicone que deixa o embrião respirar. Foi pensado para o moa-gigante, que tinha ovo grande demais para qualquer ave atual chocar, mas serve perfeitamente para o dodô também.

Com mais 120 milhões de dólares captados recentemente, a empresa agora vale mais de 10 bilhões e promete os primeiros filhotes com cara de dodô até 2028, para depois tentar reintroduzir em Maurício com o governo local.

Só que aí começa a outra parte da história. Muita gente na biologia da conservação está dividida. Um lado diz que estamos restaurando uma função ecológica perdida, já que o dodô dispersava sementes. O outro pergunta: onde esse bicho vai viver hoje, num ecossistema que mudou completamente? E se ele desequilibrar tudo? E se esses bilhões não fossem melhor usados para salvar as aves que estão quase sumindo agora?

É por isso que o projeto chama tanta atenção – a tecnologia já existe, mas a gente ainda está decidindo se deve usar.